Artigo escrito por Dr. Carlos Carneiro – Coordenador do Núcleo de Estudos de Doenças Auto-imunes da SPMI
Todos os anos, no dia 12 de outubro, assinala-se o Dia Mundial das Doenças Reumáticas. A data não existe apenas para constar no calendário, mas para quebrar mitos antigos e chamar a atenção para uma realidade que afeta mais de metade da população: a saúde dos nossos ossos, músculos e articulações.
Existe ainda a ideia pré-concebida de que a doença reumática é um mal inevitável do envelhecimento — a famosa “dor nos ossos” que afeta apenas as pessoas mais idosas quando o tempo muda. Este é, talvez, o maior mito de todos. As doenças reumáticas agrupam mais de uma centena de condições distintas que podem surgir em qualquer etapa da vida, desde a infância e juventude até à idade adulta.
Sob o chapéu das doenças reumáticas encontramos realidades muito diferentes. De forma simples, podemos dividi-las em dois grandes grupos:
- Doenças Degenerativas e Metabólicas: A mais conhecida é a osteoartrose, causada pelo desgaste progressivo da cartilagem que protege as articulações. Neste grupo inclui-se também a osteoporose, em que os ossos perdem densidade e ficam mais frágeis e suscetíveis a fraturas, e a gota, provocada pela acumulação de cristais de ácido úrico nas articulações.
- Doenças Inflamatórias e Autoimunes: Ocorrem quando o próprio sistema imunitário — que nos deveria proteger contra infeções — se desregula e ataca por engano tecidos saudáveis do organismo. Exemplos comuns são a Artrite Reumatóide, a Espondilite Anquilosante, a Artrite Psoriásica e o Lúpus Eritematoso Sistémico. Estas doenças causam inflamação crónica e podem afetar não só as articulações, mas também órgãos vitais como os rins, os pulmões, o coração e a pele.
Muitas pessoas adiam a consulta médica por acreditarem que a dor é “normal”. No entanto, o diagnóstico precoce faz toda a diferença para evitar lesões irreversíveis e manter a qualidade de vida. Fique atento aos seguintes sinais:
- Dor articular persistente: Dor articular que dura há mais de duas a três semanas.
- Edema e calor: Articulações visivelmente tumefatas, vermelhas ou quentes ao toque.
- Rigidez matinal: Dificuldade em mover as mãos ou o corpo ao acordar, que demora mais de 30 a 60 minutos a passar com o movimento.
- Cansaço extremo: Fadiga persistente e sem explicação aparente, acompanhada por vezes de febre ou perda de peso.
A boa notícia é que a medicina evoluiu extraordinariamente nas últimas décadas. Atualmente, dispomos de tratamentos inovadores — como as terapias biológicas e os alvos terapêuticos dirigidos — capazes de travar a progressão da inflamação, controlar a dor e devolver a autonomia aos doentes. Ter uma doença reumática e/ou autoimune já não significa, como no passado, um destino inevitável de incapacidade física.
A prevenção e o estilo de vida desempenham um papel fundamental no bem-estar diário:
- Mantenha-se em movimento: A atividade física regular reforça os músculos que suportam as articulações e reduz a dor. Caminhar, nadar ou praticar hidroginástica são excelentes opções.
- Cuidado com o peso: O excesso de peso exerce uma pressão acrescida sobre articulações de carga, como os joelhos, as ancas e a coluna.
- Alimente-se de forma equilibrada: Privilegie uma dieta rica em cálcio, vitamina D, ómega-3 e antioxidantes.
- Não fume: O tabagismo aumenta o risco de desenvolver doenças inflamatórias como a artrite reumatóide e reduz a eficácia dos tratamentos.
Neste Dia Mundial das Doenças Reumáticas, lembre-se: escute o seu corpo, não normalize a dor e procure ajuda médica. Cuidar das suas articulações é proteger a sua liberdade de movimentos e o seu futuro.



